Educação: a maior arma contra Alzheimer

Os casos de demência vêm aumentando, e as projeções dos órgãos de saúde em todo o mundo são assustadoras


Ao longo de minha experiência como médico de hospital público, onde a maioria dos pacientes é de baixa renda, mora na periferia e, geralmente, tem baixa escolaridade, já escutei um pouco de tudo. Nessas conversas, vem a certeza de que a maior parte dos atendimentos poderia ter sido evitada, se, no mínimo, essas pessoas tivessem suas necessidades básicas atendidas; se o saneamento básico fosse prioridade; se a prevenção fosse palavra de ordem dos governos; e se a educação fosse prioridade, levada a sério pelos governantes e população. Quantos problemas poderiam ser evitados! Quantos medos desapareceriam! E como nossas vidas seriam diferentes!

Depois que nascemos, temos uma certeza: a de que um dia iremos morrer. A nossa busca diária inconsciente é de nos manter vivos, saudáveis, construindo uma vida, uma história, uma carreira, uma família e nos perpetuando por meio dos filhos, dos netos, do que nos tornamos e deixamos de exemplo. Perder a consciência, ficar caduco, sofrer algum tipo de demência e, mais recentemente, ter Alzheimer como companhia para resto da vida são alguns dos maiores medos do ser humano.

Fatores de risco
Os casos de demência não param de aumentar. As projeções dos órgãos de saúde em todo o planeta são assustadoras, pois existem mais de 100 tipos de demência; no entanto, a maioria dos casos diagnosticados, atualmente, é Alzheimer. As pesquisas mostram que a falta de desenvolvimento intelectual é uma das principais causas para o grande número de diagnósticos de demência após os 60 anos. O mal de Alzheimer afeta todas as classes sociais, porém, segundo os pesquisadores, o fator que parece causar a maior porcentagem de casos da doença é o baixo nível educacional (19%), seguido pelo tabagismo (14%), falta de atividade física (13%), depressão (11%), hipertensão na meia idade (5%), obesidade na meia idade (2%) e diabetes (2%). Juntos, estes sete fatores de risco contribuem para os 17,2 milhões de casos de Alzheimer no mundo.

Investir em educação é vital
E aí nós voltamos para um dos maiores problemas dos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento: a falta de investimento em educação. Aqui no Brasil, a realidade nua e crua é que o País tem 6,8% de habitantes com mais de 15 anos que são analfabetos; e 30% entre 15 e 65 anos, analfabetos funcionais, estudaram, no máximo, três anos, leem e escrevem, mas são incapazes de interpretar um texto que acabaram de ler. É assustador! Isso não representa que todos eles vão sofrer de Alzheimer ou de outro tipo de demência, mas significa que são mais vulneráveis do que outros.

Segundo a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, isto ocorre porque o ensino formal contribui para a criação de redes neurais mais complexas, e estimula o cérebro a elaborar uma reserva funcional maior que será gasta ao longo da vida. Pessoas com maior nível de escolaridade geralmente executam atividades intelectuais mais complexas, que oferecem quantidade superior de estímulos cerebrais. Um indivíduo que frequentou o ensino superior possui menos chances de adquirir, de forma precoce, o mal de Alzheimer ou outra doença neurodegenerativa do que alguém que concluiu apenas o ciclo básico de educação. Portanto, aumentar o nível de escolarização pode ser eficiente para prevenir casos de demência.

O tema é complexo e ninguém está imune
Manter o cérebro constantemente ativo e estimulado pode retardar e até inibir a manifestação da doença. Outros fatores de proteção contra a demência são o controle da hipertensão, do diabetes e da depressão, aliado a hábitos saudáveis como não fumar e praticar exercícios físicos.

Referência no Brasil para questões relacionadas ao envelhecimento, o médico Alexandre Kalache afirma ver com preocupação a forma como o País tem respondido ao que ele chama de “revolução da longevidade”. “O que mais importa é treinar a equipe de atenção primária à saúde, para que os problemas decorrentes do número crescente de casos de Alzheimer possam ser minorados. No entanto, o SUS parece estar sendo desmantelado. Centros de saúde estão mal financiados, muitos deles estão fechando, e as condições de trabalho são altamente inadequadas”, ressalta.

Não há política nacional para lidar com demências
À frente da presidência do Centro Internacional de Longevidade (ILC), Alexandre Kalache comenta: “A Política Nacional de Saúde (PNS) para fazer face ao envelhecimento não só é insuficiente em relação ao desafio, como deficitária quanto à sua aplicação. Assim como na Constituição, a PNS atribui à família a responsabilidade de cuidar de pacientes com Alzheimer. No entanto, além da “insuficiência familiar” – com famílias mais fragmentadas, menor número de filhos e fatores como moradias precárias -, o que mais falta é uma política de apoio à família para que ela possa exercer este papel adequadamente”.

Educação no centro das atenções
Diante dessas questões, temos certeza da necessidade de o brasileiro levar a política a sério. A construção de uma grande nação, o desenvolvimento de um povo e a sobrevivência do ser humano estão nas mãos de seus homens públicos, suas posturas e políticas que defendem. Nas democracias, essa responsabilidade não é só do político no exercício do mandato, mas principalmente do seu próprio povo, que escolhe, que elege. Infelizmente, as sociedades estão cada vez mais vulneráveis, fragilizadas, e as pessoas se defendem mais reagindo do que agindo e, na falta de entendimento do seu papel, não têm conseguido corrigir os rumos.

Nunca é tarde para tentar consertar os problemas
Esta é uma discussão complexa, mas o nosso fim depende de nossas posturas diante da vida, de nossas responsabilidades, de nossas ações, do olhar vigilante, para, pelo menos tentar, diminuir os danos. No Brasil, é urgente que os danos sejam contidos. Os alertas vêm sendo dados, mas a população precisa se envolver mais, participando ativamente, e não sendo passiva a maior parte do tempo, só agindo na hora do voto, na maioria das vezes pela emoção ou por “vingança”, quase nunca racionalmente.

Educação é tudo; nada se resolve, nada se constrói sem educação. Há muito tempo o Brasil tenta entrar para o grupo dos maiores do mundo, mas, apesar do que temos e de onde chegamos, estamos longe de nos transformar em uma nação desenvolvida. Sem investimento em educação, a saúde continuará sendo um grave problema. Para resolver as questões da saúde, precisamos de médicos, enfermeiros, remédios, tecnologia, hospitais, prevenção…. Para tudo isso, necessitamos de muita mão de obra qualificada, e ela só vai existir se o brasileiro se instruir, se formar, se especializar. Isso só acontece com estudo.

https://saude.gov.br/saude-de-a-z/alzheimer25

*Fotos: Divulgação e Pressfoto/Freepik

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